Glauber Piva nasceu em Poços de Caldas e cresceu entre Votorantim e Sorocaba. Das características da identidade mineira, muitas atribuídas folcloricamente, como a timidez e a desconfiança, não herdou nada. Muito pelo contrário, a disposição para buscar soluções para os desafios que se colocam em sua vida o levou a galgar, muito rapidamente, importantes degraus na carreira política. De cientista político formado pela USP, se tornou Secretário de Cultura do Município de Votorantim. A busca de um intercâmbio com gestores de cultura de outros municípios culminou no principal movimento que deu origem ao setorial de cultura do Partido dos Trabalhadores, cuja direção nacional foi assumida pelo próprio Glauber. O mesmo que logo tratou de se envolver com a elaboração do Programa de Governo para a Cultura do então candidato a Governador do estado de São Paulo, José Genoino, passando logo ao seleto grupo que elaborou o Programa de Governo do então candidato a presidente, em 2006, Luiz Inácio Lula da Silva. Analisando a velocidade com que Glauber chegou até 2006, não é de se estranhar que tenha sido indicado pela presidência nacional do PT e pelo próprio presidente Lula para ocupar lugar na diretoria da Agência Nacional de Cinema, Ancine.
Em entrevista ao nosso site, Glauber fala um pouco sobre sua trajetória política e apresenta, com riqueza de detalhes, como funciona a Ancine. Confira!
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Eu nasci em Poços de Caldas, Minas Gerais, vim morar em Sorocaba com oito anos, depois fui para Votorantim com nove anos, onde morei bastante tempo da minha vida. Mas eu sempre tive uma atuação profissional, estudantil, entre Votorantim e Sorocaba.
Estudei no Achilles de Almeida, estudei em algumas escolas em Sorocaba, mas a partir da 6ª série até encerrar o ensino médio, eu estudei no Achilles de Almeida, em Sorocaba. Trabalhei no Hospital Evangélico, depois fui fazer faculdade em São Paulo, fiz Ciências Sociais na USP. Voltei para Sorocaba, trabalhei na rádio CBN, trabalhei no colégio Carlos Rennê Egg, em Votorantim, dei aula no Estado, depois eu fui para São Paulo novamente fazer mestrado em Sociologia, na USP. Regressei para participar do governo Jair Cassola e Carlos Pivetta em Votorantim. Fiquei na gestão de 2001 a 2004.
Em 2003... aí vem uma particularidade. Eu sou filiado ao PT desde 1989, eu vou completar dia 13 de setembro 20 anos de filiação no PT. Quando eu assumi a Secretaria Municipal de Cultura de Votorantim com alguns companheiros, em 2001, nós não tínhamos no PT nada organizado na área de Cultura, nada em termos regionais. Então, por iniciativa do Secretário de Cultura de Guarulhos, o Secretário de Cultura de Ribeirão Preto e o de Piracicaba, se convocou um encontro dos Secretários Municipais de Cultura das administrações do PT, que eram 35 prefeituras do PT, aproximadamente. Em agosto de 2001 fomos todos a Ribeirão Preto para nos encontrar, para saber como é que cada um fazia a sua gestão, quais eram as experiências, o que acontecia de mais interessante. A gente, ali, percebeu que, mais ou menos, todo mundo trabalhava à luz dos textos da filósofa Marilena Chauí, que foi Secretária de Cultura da gestão da Luiza Erundina em São Paulo. A Marilena Chauí é quem sistematizou a ideia de cidadania cultural e, de certa maneira, até o início de 2000, sempre foi a grande referência para nós, até hoje ela é uma grande referência embora o PT tenha produzido outras coisas também bastante interessantes.
Em 2001, portanto, nos encontramos e decidimos criar um Fórum Petista de Dirigentes Municipais da Cultura. Tivemos um segundo encontro em São Paulo ainda em 2001 e o terceiro encontro foi em Votorantim, no início de 2002, na verdade em abril de 2002. Nesse encontro; nós teríamos eleições presidenciais e para o Governo do Estado naquele ano; a pauta era organização da cultura dentro do PT, porque não havia um setorial de cultura no PT. E também efetivar as nossas trocas de experiências. Nós descobrimos naquele momento, em que já estávamos em abril, num período de pré-campanha muito intenso, que havia 16 grupos de trabalho para elaboração do Programa de Governo do José Genoino, nosso candidato ao Governo do Estado. Dos 16 grupos de trabalho, 15 tinham seus coordenadores e apenas o grupo de cultura não tinha. Isso gerou uma grande indignação, a então deputada federal Iara Bernardi estava no nosso encontro, no ato ela passou a mão no telefone, ligou para o Genoino, que pediu que se falasse com o Zé Machado, Prefeito de Piracicaba na época e coordenador do programa de governo. O Zé Machado falou que realmente não tinha coordenador e não sabiam como fazer, perguntando o que sugeríamos. Eu falei que nós coordenaríamos e, dessa maneira, aquele fórum se organizou, viramos Fórum efetivamente Petista de Dirigentes Municipais de Cultura. Eu assumi a coordenação desse Fórum e assumi a coordenação do Programa de Governo junto com o Roberto Lima, que hoje é meu assessor, trabalha comigo na diretoria da Agência Nacional do Cinema.
Coordenei o programa do Genoino, fomos ao segundo turno, participei do programa do então candidato a presidente, Lula. Ajudei a organizar a transição, participei da transição para o início do governo Lula. O Gilberto Gil foi nomeado e isso gerou uma grande surpresa nos meios petistas e, se por um lado houve a frustração de não assumirmos a direção no Ministério da Cultura, por outro lado mobilizou o partido para criar, de verdade, a Secretaria Nacional de Cultura do PT.
Naquele instante, em 2003, foi nomeada uma comissão pró Secretaria Nacional de Cultura, pró setorial de Cultura. Eram dessa comissão Margarete Moraes, Secretária de Cultura de Porto Alegre, Antônio Pitanga, ator do Rio de Janeiro, o Hamilton Pereira, à época presidente da Fundação Perseu Abramo, o Antônio Grassi, o Sergio Mambert, eu e o João Roberto Peixe, Secretário de Cultura de Recife. Integramos essa Comissão e começamos a trabalhar. Organizamos encontros em 23 estados do Brasil, entre julho e setembro. E eu fazia isso acumulando a Secretaria Municipal de Cultura em Votorantim. Nós nos dividíamos nas viagens. O PT estimulou muito isso. Viajamos o Brasil inteiro, conseguimos organizar, até que no mês de novembro organizamos uma grande Conferência Nacional de Cultura do PT. Participaram lá mais de 600 delegados no Hotel Hilton, em São Paulo. Tivemos a presença do Genoino, presidente nacional do PT à época, do Ministro Gilberto Gil e de outras tantas pessoas. E ali eu fui eleito 1º Secretário Nacional de Cultura do PT. Isso era novembro de 2003.
A direção do PT me chamou no mês seguinte dizendo que gostaria que eu me desvinculasse da Prefeitura de Votorantim e assumisse a Secretaria Nacional em tempo integral. Isso, pra mim, foi um golpe muito duro. Eu tive muita dificuldade em aceitar. Reunimo-nos, alguns companheiros, em Votorantim para discutir essa situação. Eu realmente não queria, recusei por muito tempo, relutei por muito tempo, até que não teve jeito. Passando o carnaval de 2004, eu fui para a direção nacional, deixei a Secretaria Municipal. O diretor da minha gestão, que era o Werinton Kermes, acabou assumindo a Secretaria Municipal de Votorantim e eu fiquei na Direção Nacional do PT de 2003 até 2008.
Acumulei, a partir de 2007, a chefia de gabinete da presidência nacional do PT, mas fiz uma coisa que para mim foi uma grande honra, que foi ter integrado um Comitê de cinco pessoas, que coordenou todo o programa de governo do Presidente Lula em 2006, incluindo as concepções teóricas do PAC e a proposta do Vale-Cultura, que foi lançado agora.
Éramos Marco Aurélio Garcia, o coordenador, Valter Pomar, o Secretário de Relações Internacionais, Miriam Belchior, que trabalha na Casa Civil do governo Lula, o professor Juarez Guimarães, da UFMG, e eu. E aí fizemos 28 programas setoriais e mais o programa central do Lula. Apresentamos isso à sociedade, discutimos com a sociedade. Então, esse é um trabalho que me honra muito ter feito parte da elaboração do programa do presidente Lula, ter ajudado a escrever a tese do 3º Congresso Nacional do PT, que aconteceu em 2007, fui eu que coordenei a elaboração dela, da tese que foi aprovada.
Em 2008 encerrei meu mandato, fui fazer uma pós-graduação na Espanha e retornei, quando eu fui chamado pelo presidente Ricardo Berzoini e pelo companheiro Zé Dirceu para discutir a possibilidade da minha ida à Agência Nacional do Cinema. Eu nunca fui militante do cinema, mas fui convencido da importância do PT qualificar seus quadros para isso, nessa área de cinema e comunicação. E também o PT conseguir ter alguém na Agência que não represente apenas o setor da produção da cinematografia brasileira, mas que possa representar o olhar do público mesmo, uma discussão sobre o interesse público ali na Agência. E lá estou desde junho.
Vou fazer uma pergunta que volta um pouco atrás. Como iniciou a sua relação com a área da Cultura?
Eu sou sociólogo. Talvez a minha relação tenha iniciado lá atrás, quando, desde pequeno, minha mãe me levava para cinema, teatro, circo. Mais efetivamente, eu fiz alguns cursos de teatro em Sorocaba e eu estudava, lia sobre o assunto. Mas eu não era, de verdade, um pensador da cultura. Não era. Eu fui chamado para fazer a gestão em Votorantim e me dediquei para isso. E a partir de então eu fui me especializando em gestão pública de cultura. Eu acho que devo muito disso ao Pivetta e ao prefeito Cassola.
Além desse papel de representar uma pessoa do PT dentro Agência, algum outro objetivo específico o levou à Ancine?
Não. Eu estou muito confortável na Agência Nacional de Cinema, exatamente porque eu não tenho ali rabo preso com quem quer seja. O PT me pediu para fazer o melhor trabalho possível, estar qualificado, conseguir participar da convocação da sociedade brasileira para participar da Conferência Nacional de Comunicação, que acontece no final desse ano, fazer o debate dentro do Partido sobre o tema e qualificar a militância mesmo. Nós temos ali militantes do PT que precisam compreender que a discussão de Comunicação é fundamental quando a gente quer discutir modelo de democracia no Brasil e a construção de uma identidade cultural brasileira, que é um processo dinâmico, que se altera o tempo todo, mas que é importante fazer esse debate de maneira mais qualificada. Foi esse o grande pedido que eu recebi dos nossos líderes.
Você já conseguiu avançar em alguma das suas metas nesse pouco tempo que você está na Diretoria da Ancine?
Ah, com certeza. A minha primeira meta era conhecer o funcionamento da Agência. Ela é uma Agência que tem um orçamento muito grande. Toda a produção de cinema do Brasil, 90% dela, de longa metragem, passa pela Agência Nacional de Cinema, é fomentada por ela. Nós temos fundos de investimento em parceria com a Finep e agora estamos discutindo com o BNDES. Nós temos um caixa orçamentário bastante robusto para poder chegar à condição que nós estamos chegando esse ano, que é do cinema brasileiro estar muito melhor do que já esteve. Então, o meu primeiro objetivo era esse, conhecer a Agência e me apropriar das ferramentas que ali tem e esse objetivo, de certa maneira, está sendo cumprido a contento.
E agora, cada vez mais... por exemplo, um tema pelo qual eu me interessava muito, com o qual eu me comprometi logo que cheguei, inclusive no meu discurso de posse eu falei sobre isso, que é a necessidade de fazermos uma ampliação do parque exibidor. Conversamos com várias lideranças do governo, ali dentro da agência, e nós estamos agora articulando e devemos anunciar em novembro a ampliação do parque exibidor. Traduzindo, aumentar a quantidade de cinemas pelo país. Hoje o Brasil tem 2.300 cinemas. É uma média de uma sala para cada 80 mil pessoas, quando nós temos no México uma sala para cada 35 mil pessoas, na Argentina uma sala para cada 30 mil pessoas. O Brasil está muito defasado e as pessoas não conseguem ir ao cinema porque é caro, por uma série de outros motivos. Tem as questões de segurança, porque a ampliação das salas de cinema está muito ligada à ampliação dos shoppings pelo país. Então, tem essa discussão toda que a gente precisa fazer, eu tenho feito, tenho participado dessa discussão e eu acho que no mês de novembro nós anunciamos isso para a sociedade brasileira.
O sistema de financiamento do cinema brasileiro já foi motivo de debates bem polêmicos. Como está essa questão hoje?
O financiamento do cinema hoje é um modelo complexo. Não é um modelo simples. Nós temos fomento direto, ou seja, nós colocamos recursos em algumas pequenas produções de baixo orçamento e algumas pequenas atividades. Temos o fomento indireto, que é a renúncia fiscal. Então, o produtor entra na Ancine, submetido a uma série de regras pedindo financiamento, pedindo autorização para captação de recursos para fazer determinado filme. A Ancine analisa isso desde a coerência do projeto, coerência relacionada a roteiro e o custo proposto, o orçamento apresentado. Há faixas para captação dependendo da experiência do proponente. E aí a Ancine pode aprovar ou não, pedir alteração. Mas uma vez aprovado esse projeto, tem lá uma tramitação longa, mas uma vez aprovado, esse produtor tem a autorização para captar dinheiro público via empresas, que doariam esse recurso. Na realidade, é um recurso que elas pagariam de imposto de renda e passariam para investir no filme. Aí, tem alguns modelos que ela pode ser investidora do filme, pode ser só apoiadora, pode ser sócia do filme. Esse é o modelo que é muito usado. Hoje a Agência autorizou a criação de Funcines, que são fundos de investimento na Bolsa de Valores, fiscalizado pela Comissão de Valores Mobiliários. Esses Funcines têm prazo de funcionamento, eles têm que reverter o seu capital no investimento de filmes e eles entram como sócios, porque é o fundo de investimento.
A Ancine também participou da criação, uma questão do Governo Federal, de um fundo setorial do áudio-visual, em que nós temos linhas de financiamento em que o fundo de investimento entra como sócio ou na produção, ou na distribuição de filmes. E agora quem sabe, mais à frente, na exibição, no mercado exibidor, entrando como sócio em algumas salas de cinema. Basicamente é esse mosaico que estimula, que possibilita a produção de filmes do Brasil. Mas também nós temos linhas para apoiar a participação de filmes brasileiros em festivais no exterior, por exemplo.
Então, tem esses diferentes modelos de apoio, investimento, financiamento ao cinema brasileiro e é importante que assim seja, porque nós temos filmes desde os pequenos, do produtor iniciante, do cara que quer fazer um filme de R$500 mil, que é um valor baixo para o cinema brasileiro, quer fazer um filme barato para ser exibido em um festival. Até um filme como o "Se eu Fosse você 2", que é um filme importante para a cinematografia brasileira, não por ele ser um filme de arte, de reflexão, mas porque ele estimula o hábito do brasileiro de ver filme brasileiro no cinema.
Então, é preciso compreender que a gestão pública do cinema brasileiro é feita considerando vários elementos, diferentes variáveis e nós estamos atentos a isso, ao interesse do público, à identidade do cinema brasileiro e etc.
Essa política de financiamento tem conseguido democratizar o acesso dos produtores aos recursos?
Eu acho que sim. Agora, é um processo de aprendizagem. Há muitos produtores que imaginam que quando eles concorrem num fundo de investimento, esse fundo de investimento tem que dar dinheiro por cotas regionais, por exemplo. Esse não é o papel do fundo de investimento, eu me refiro aí exatamente ao fundo setorial para audiovisual. Ali é um investimento em quem tem compromisso com performance. Porque nós temos uma deformação no sistema de financiamento do cinema no Brasil.
Historicamente, o Brasil só financiava a produção de filmes. O produtor era remunerado apenas na produção. Isso quer dizer o seguinte: se o filme dele fosse apoiado, fosse visto ou não fosse visto, se ficasse na prateleira eternamente, ele já teria ganho o dinheiro dele porque ele já foi remunerado lá. Então, a performance do filme não interessava porque era renúncia fiscal. O produtor apresentava o projeto, conseguia captar o recurso, fazia o filme dele e se nenhum distribuidor quisesse distribuir, se nenhum exibidor, dono de cinema, quisesse exibir o filme dele, não tinha problema do ponto de vista financeiro, do ponto de vista da carreira dele. Porque você pagou ali, ele fazia um outro projeto no ano seguinte, fazia a mesma coisa e ninguém mais veria.
Então, se nós formos analisar os dados, a quantidade de filmes produzidos e quantidade de filmes exibidos, e, portanto, assistidos é muito grande. A quantidade de filmes feitos com recurso público, que só são vistos por no máximo dez mil pessoas, isso não é nada, é muito grande. Se a gente considerar que qualquer programa de televisão, na televisão com menor audiência do país, qualquer televisão comunitária tem pelo menos 20, 30 mil pessoas assistindo, um filme que custa R$1 milhão, R$2 milhões e é visto por de mil pessoas, é provavelmente um mau uso do recurso público. Então, era preciso que nós conseguíssemos matizar um pouco o modelo de investimento feito, o apoio ao investimento. Nós temos um fundo de investimento que coloca recursos mais substanciais em filmes que têm compromisso de desempenho, ou seja, que vão ser distribuídos pelo país, que vão ser exibidos em lugares "X, Y, Z" e vão trazer interesse público.
Às vezes nós perguntamos para o produtor: "qual o público que você imagina que verá o seu filme?". "Qual a quantidade de público que você espera que veja?" Quando ele responde "isso não interessa, o que interessa é vocês me darem dinheiro para fazer esse filme, porque ele vai ser importante para a cinematografia brasileira". Sim e não. Às vezes é verdade, mas outras vezes não! Então, é preciso ter linhas de financiamento para um modelo e para outro modelo. Recursos diferentes, considerando compromisso com desempenho, experiência do produtor, compromisso para a distribuição etc. Há vários modelos de financiamento para vários modelos de filme, ou de projetos. Às vezes não é filme só para cinema. Ali nós fazemos também projeto de financiamento para televisão. As TVs por assinatura têm... a gente estimula muito a produção independente para a televisão. E aí as regras são outras, o diálogo com o público é outro, com o exibidor é outro e nós temos que estar atentos a isso.
Eu vou entrar numa pergunta quando você fala da preocupação que a população tenha acesso a esses filmes, eu vou comentar com você um trecho de um artigo do Eugênio Bucci, que ele falava do funeral do Michael Jackson. Ele fala que esse episódio demonstrou como a indústria do entretenimento engoliu as outras esferas da vida e ele cita em particular a religiosa. Ele faz uma afirmação: "É na cultura que o entretenimento se firmou como a única forma de representação possível desbancando as outras". Eu queria saber qual a sua opinião sobre isso e como ficam os gestores de políticas de Cultura diante desse cenário?
Eu acho que é inegável que a sociedade ocidental se transformou em uma sociedade do espetáculo há muitos anos. Mas essa espetacularização da vida é também mediada por outras várias relações que interferem na formação do gosto, por exemplo. Esse é o papel de uma política pública importante. Não adianta pensarmos a gestão pública de cultura no Brasil, nos municípios, apenas como quem vai produzir um show A ou B, uma festa A ou B, sem nenhum compromisso com a vida do cidadão. Esse é o papel do poder público.
O Ministério da Cultura tem hoje a Secretaria do Audiovisual que dialoga com documentários, com filmes de baixo orçamento, com o objetivo esse, de formação do gosto. A Ancine também faz isso, mas faz mais, na perspectiva de atração das pessoas para o cinema, para o hábito de ir ao cinema. Hoje só 9% do público já foi ao cinema no Brasil, é muito pouco.
Agora, sem dúvida, quando a gente olha o funeral do Michael Jackson, isso se coloca para o gestor público como uma questão importante. Primeiro, os prefeitos se perguntam: será que vale a pena investir em cultura? Em formação? Em oficinas culturais? Em qualquer coisa que vá melhorar, ou que vá oferecer a perspectiva da diversidade cultural para a população da minha cidade, ou é melhor que eu simplesmente reproduza aquilo que é feito na televisão pela iniciativa privada?
Eu diria com muita tranqüilidade, vale a pena! Porque o gestor público é responsável pela discussão do interesse público. E o interesse público não pode ser apenas a reprodução do que "Fautões" e "Gugus" fazem nos seus canais. Não pode ser só uma reprodução de funerais de "Michaels Jacksons". Não pode apenas ser... eu vou dar um exemplo muito claro. Nós assumimos a Secretaria de Cultura em Votorantim e fizemos um carnaval. Era um mês e meio depois de assumirmos. Mantivemos mais ou menos o que era feito, com algumas mudanças. Uma dessas coisas que nós fizemos era levar trio elétrico com som mecânico para o bairro e contratamos algumas dançarinas, umas meninas para dançar. Durante esse carnaval, lá olhando em um determinado bairro, vimos vários meninos de 10, 12, 13 anos, embaixo do caminhão olhando para os quadris das meninas que dançavam em cima do caminhão. Imediatamente... acabou o carnaval, fizemos uma avaliação e encerramos essa etapa. Porque avaliamos que não é papel do poder público estimular a "bundalização" da cultura. O papel do poder público é outra coisa: é gerar renda para os artistas locais, gerar uma identificação do artista local com a sua comunidade, da comunidade com o seu artista, promover a superação de preconceitos, estimular que a auto estima coletiva seja fortalecida. Várias atividade que, isso você pode fazer e que só a cultura pode fornecer, que é estimular com que a cidadania ela não seja só uma peça, uma palavra de dicionário, mas que ela seja realmente a experiência crítica da construção da sociabilidade. Esse é o papel do gestor público e do Secretário de Cultura. É por isso que nas administrações do PT a Secretaria de Cultura não pode ficar relegada a segunda ordem. Ela tem que ser, talvez, um grande pólo de atração de outras políticas públicas que a prefeitura realiza.
Você está aqui hoje no escritório do Hamilton para um Encontro Regional entre Gestores de Cultura . Está se iniciando um Fórum Regional, qual a importância dessa interlocução?
Eu nasci como gestor público de Cultura a hora que os Secretários de Cultura do PT resolverem am se encontrar. É apenas no momento que nós encontramos os nossos iguais que podemos trocar experiências e falar sinceramente, ver, enxergar os erros que estamos cometendo. Eu acho que a região de Sorocaba tem um déficit muito grande de promoção de gestões coletivas, participativas regionais. Nós precisamos estimular que isso aconteça de maneira mais forte, mas efetiva e o deputado Hamilton Pereira, sem dúvida, pode ser um grande articulador desse tipo de atividade. Eu confio muito no Hamilton, por isso eu estou aqui hoje e confio muito nos gestores de cultura da região, eu acho que podemos dar um grande passo e fazer dos próximos anos aqui, uma marca regional da gestão de Cultura.