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Quarta-feira, 03 de março de 2010

"Não vamos recusar nenhum apoio", diz ministro sobre palanques de Dilma

Alexandre Padilha diz que a ministra é “a mais preparada” para defender o governo Lula

O ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, é o ministro do Twitter, mas é também um dos protagonistas do segundo mandato do governo Luiz Inácio Lula da Silva e autoridade próxima à pré-candidata do presidente à sua sucessão: a ministra Dilma Rousseff.

Padilha recebeu o R7 há duas semanas, no ministério das Relações Exteriores, em Brasília, e, apesar de negar ser um braço direito da ministra, está em "todas" com a presidenciável, sendo presença garantida na maioria dos eventos ou viagens da pré-candidata. Para Padilha, a ministra é a pessoa mais preparada para assumir o governo porque nunca "premeditou" nem "trabalhou" para isso, e disse que Dilma é a continuidade do lulismo.

- Não tenho dúvida, a melhor pessoa para representar a continuidade do projeto do presidente Lula é a pessoa que estava em todos os processos decisivos do governo Lula, e a Dilma é a melhor pessoa para representar isso.

À reportagem, ele defendeu os palanques duplos nos Estados.

- Sendo um partido que colabore com o presidente Lula, quer declarar apoio a Dilma, nós vamos aceitar.

Padilha falou ainda sobre as críticas da oposição às viagens de Dilma e dos aliados nas eleições de outubro, e aproveitou para alfinetar os tucanos.

- É natural que ele [ex-presidente Fernando Henrique Cardoso] saia em defesa do governo dele porque parece que ninguém da oposição quer defender o governo dele.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

R7 - Como o senhor foi parar no ministério e substituiu José Múcio [que foi para o Tribunal de Contas da União]?

Alexandre Padilha - O ministério das Relações Institucionais tem um tripé, que é a relação com o Parlamento, Conselho de Desenvolvimento Econômico Social e a Subchefia de Assuntos Federativos, que faz a relação com governadores e prefeitos. Então, estou na subchefia, eu era o titular antes, fazia essa relação, então acho que minha indicação tem a ver com isso. O presidente naquele momento queria alguém que ficasse até o final do governo, não fosse disputar mandato e relação de confiança que já vem de anos, nas campanhas de 1989, 1994.

R7 - O senhor participou de todas?

Alexandre Padilha - Nas de 89 e 94, nos comitês das campanhas, tanto nacional quanto estadual. Em 1994, acompanhava as prefeituras do PT, depois eu tinha me afastado das direções do PT, estava desenvolvendo só o meu lado profissional, na área da saúde, fiquei 6, 7 anos fazendo isso e nesse período acompanhando muitas prefeituras do PT. Então, quando eu vim pra o governo, também minha relação com as prefeituras, não só do PT, tem a ver com isso.

R7- Como acompanhando as prefeituras, qual o trabalho?

Alexandre Padilha - Eu trabalhava na USP, núcleo de medicina tropical que era parceria da USP com o ministério da Saúde, em 1997 até 2003, e neste período eu era militante do PT, acompanhava o trabalho da Secretaria das Relações Institucionais do PT. Aí vim para o Ministério da Saúde em um primeiro momento, para a Funasa [Fundação Nacional de Saúde], quando começou o governo. E depois, em 2005, na transição entre o Aldo Rebelo para o Jaques Wagner [nas Relações Institucionais], eu vim para o ministério da coordenação política.

R7 - Como o senhor vê essa fama de ser um ministro "boa praça", diferentemente do anterior?

Alexandre Padilha - Acho que não, tem uma continuidade do trabalho, o ministro José Múcio foi o ministro que mais permaneceu na coordenação política do governo, só por isso já tem os seus créditos. É um cargo de relacionamento, não executa programas, ações. O papel aqui é fazer articulações, construir diálogos, se relacionar com todos os partidos, estabelecer trânsito com a oposição. Só o fato de ele ter ficado mais tempo, é uma demonstração de que cumpriu papel muito importante naquele momento. Eu, com as minhas características, dou continuidade a esse trabalho. Eu acho que tem uma característica que tem a ver com a conjuntura que eu peguei, que é pré-eleitoral. A perspectiva de continuidade do governo também interfere muito nas relações com os partidos. Como não sou deputado, não disputo mandato, os parlamentares me veem como alguém que não disputa com eles, isso abre conversa com todo mundo.

R7 - A relação mais difícil é com o PMDB?

Alexandre Padilha - Pelo contrário, eu inclusive estou muito feliz com a recondução de Temer [Michel Temer, presidente da Câmara] como presidente do PMDB. Estive na convenção, acho que foi uma convenção bastante representativa e que saiu com uma chapa unidade. Isso é histórico para o PMDB. A relação com o PMDB tem sido a melhor possível. Essa relação e a perspectiva de continuidade dessa relação, numa aliança do PT-PMDB com os demais partidos da base aliada, facilitam as coisas na Câmara e no Senado.

R7 - Sem o PMDB não dá para aprovar projeto, para campanha?

Alexandre Padilha - Eu acho que os 17 partidos da base aliada são fundamentais, tanto para a eleição quanto para terminar o governo e terminar bem. Acho que o PMDB tem algumas questões muito valiosas, tem experiência de governo, tem dentro do seu partido um conjunto de quadros políticos que já foram ministros, governadores, dirigentes de órgãos federais e isso contribui muito para a gente conduzir a máquina do governo. Segundo, é o maior partido na Câmara e no Senado e tem capilaridade no Brasil inteiro.

R7 - Mas uma base aliada gigante, excesso de aliado, não acaba criando problemas? Como acontece no Rio, por exemplo, que cria dois palanques?

Alexandre Padilha - Pelo contrário, quanto mais gente declarando apoio a Dilma e ao nosso governo melhor. Eu trabalho sempre com esforço para chegar numa situação ideal. Ideal para gente, é ter uma eleição polarizada um candidato no plano nacional e um no plano estadual, que a gente possa fazer campanha polarizada, entrar de corpo e alma nos palanques e sempre vou trabalhar para toda base junta, mas a gente sabe que tem situações onde isso não é possível e que depende muito mais de líderes locais do que qualquer orientação nacional.

R7 - Por exemplo?

Alexandre Padilha - Exemplo da Bahia é isso. Um governo do PT, vários partidos em torno deste governo, perspectiva interessante de sucessão, e tem um candidato que é do PMDB, que o tempo todo tem dito que vai ser governador, é ministro do governo Lula (Geddel Vieira Lima). No Rio, a mesma coisa, temos um ex-governador [Anthony Garotinho] e um governador [Sérgio Cabral] declarando apoio à ministra Dilma. Nós não vamos recusar nenhum apoio de qualquer candidato a governador que seja da base aliada do governo. Sendo um partido que colabore com o presidente Lula, quer declarar apoio a Dilma, nós vamos aceitar. E aí as direções partidárias vão tratar caso a caso: como vai ser conduzida [a campanha], como será a participação da candidata, se ela vai, grava para todo mundo. Aí é uma decisão das direções partidárias.

R7 - O que o senhor acha que contribuiu mais para a ministra ser a escolhida? Por que, se avaliarmos esses 30 anos do PT, a ministra é novata no partido, filiou-se em 2001 e nunca disputou eleição?

Alexandre Padilha - Acho que é o fato dela ser a pessoa mais preparada para defender o governo do presidente Lula. A ministra Dilma tem papel decisivo no que fez no governo. No começo, quando começou a montar as mudanças no sistema de energia elétrica, que influenciou outras mudanças, e ainda mais quando veio para a Casa Civil em 2005. Acho que o fato dela ser a candidata, não só do presidente, mas do PT, é fato dela ser a pessoa mais preparada para defender este governo. E ao defender apontar para o que pode ser a continuidade deste governo.

R7 - Eu digo do presidente porque o PT acabou endossando o nome dela...

Alexandre Padilha - Mas eu acho que o PT também assumiu isso, acho que não foi só indicação do presidente. Em parte, tem sim a indicação do presidente, o peso que ele tem, mas o PT também foi compreendendo que era fundamental ter alguém que estivesse no centro do governo, que é a mais preparada para ser candidata ao governo. Não foi um ato do presidente só, acho que o conjunto do PT foi amadurecendo essa ideia também, porque já teve situações em que o presidente tem uma opinião e o PT tem posição diferente. Vamos ter este ano ainda, o PT tem uma opinião, o presidente tem outra. Neste caso, acho que teve uma confluência dessa opinião.

R7 - O senhor acha que ela percebeu isso?

Alexandre Padilha - Acho que o que fez a ministra Dilma ser a candidata do PT e do presidente é o fato dela nunca ter premeditado ou ter trabalhado para ser. Isso foi decisivo, porque ela surgiu fruto desse processo coletivo, nunca ter feito nenhum movimento para se posicionar para isso. Eu acho que todo aquele que se premeditou ou trabalhou para ser poderia não ter sido escolhido. Eu acho que o fato dela nunca ter trabalhado para ser foi o que a credenciou.

R7 - A oposição critica toda hora as viagens da ministra, suas ações, diz que ela está em campanha e até o ex-presidente FHC entrou no debate, como voz dos partidos. Qual a sua opinião?

Alexandre Padilha - Nós queremos fazer um debate com a oposição sobre o futuro do país, comparando com o que eles fizeram e o que nós fizemos e também com aquilo que eles propõem para o país. Até hoje eles não deixaram claro o que propõem para o país, nós vamos deixando cada vez mais claro o que vamos propor para o país. Eu acho que não tendo projeto para o país, a oposição parece estar caminhando para um rumo que eu acho que quem já fez isso foi derrotado eleitoralmente. É um rumo de tentar atacar pessoalmente a pessoa, tentar fazer críticas pessoais, às vezes até grosseiras e tentar obstruir o país.

R7 - E o FHC?

Alexandre Padilha - O presidente FHC, acho que é natural que ele saia em defesa do governo dele porque parece que ninguém da oposição quer defender o governo dele. Então, se só sobrou ele para defender o governo dele, é natural que ele saia em defesa do governo dele. Nós não temos problema nenhum em comparar os governos.

R7 - Mas não desvia o debate, comparar Lula x FHC em vez de Dilma x Serra?

Alexandre Padilha - Acho que não. Todos os debates sobre o futuro do país precisam ser feitos. Primeiro, em relação a quem está disposto a conduzir o rumo do país, o que fez. Ninguém pode vir falar que vai fazer alguma coisa sem falar o que fez quando foi governo. Como a oposição não está dizendo ao país o que quer fazer, a única comparação que podemos fazer é com o que eles fizeram. Quando começarem a falar o que vão fazer, nós vamos comparar, e com aquilo que fizeram também.

R7 - Dilma é a melhor pessoa para dar continuidade ao lulismo?

Alexandre Padilha - Não tenho dúvida, a melhor pessoa para representar a continuidade do projeto do presidente Lula é a pessoa que estava em todos os processos decisivos do governo Lula. E a Dilma é a melhor pessoa para representar isso.

R7 - O que o senhor pretende caso a ministra seja eleita sucessora?

Alexandre Padilha - A ministra, a única tarefa aqui é servir a missão que o presidente me deu, que é ajudar até o final do governo, coesionar (sic) a base aliada, ajudar na relação política com o Congresso, governadores e prefeitos e CNDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social). Não tenho nenhuma outra missão, depois que acabar essa, quem quiser que me renove outras missões.

R7 - O senhor não se considera nem braço direito da ministra?

Alexandre Padilha - Não, não, me considero ministro do governo do presidente Lula. Que tem uma missão política, até dezembro deste ano, e sei que essa missão ajuda no projeto de continuidade do governo.

R7 - E o Twitter, esse vício?

Alexandre Padilha - Eu estou muito feliz de ter descoberto esse meio de comunicação, me ajuda a falar com militância, cidadãos...

Andréia Sadi, do R7