O senador Aloizio Mercadante, pré-candidato ao governo de São Paulo pelo PT, deu uma longa entrevista à CartaCapital dia 10 de maio último. Criticou duramente a gestão tucana no Estado, avaliou a conjuntura nacional, as chances de Dilma Rousseff e as realizações do governo Lula. Comemorou as articulações para ampliar a frente partidária que lhe dará suporte e falou sobre os principais pontos de seu futuro plano de governo.
CartaCapital: Senador, como está a construção da frente partidária para as eleições para o governo de São Paulo?
Senador Aloizio Mercadante (AM): Estamos já com dez partidos em processo de consolidação. O PDT fez um encontro estadual sábado passado e aprovou por unanimidade o apoio à nossa candidatura. O PR já anunciou formalmente o apoio e o PRB também, o PC do B fará seu encontro no dia 20. Hoje tivemos a oficialização do apoio do PSDC. Além deles, o PT do B, o PPL, o PRP e o PSL. E o PTC deve anunciar, podemos chegar a 12 partidos.
CC: O PTB como é que fica?
AM: O PTB tem setores que já se manifestaram publicamente favoráveis à minha candidatura. Deputados federais, prefeitos, ex-prefeitos, tem um movimento interno forte e uma profunda insatisfação com o tratamento que o partido deu ao senador Romeu Tuma. Essa insatisfação, não sei se levará a algum outro desdobramento, mas nós nunca tivemos alianças com eles em São Paulo e o mais provável é que não estarão conosco, mas uma parte significativa estará.
CC: Esse bloco de alianças satisfaz o PT?
AM: É a maior aliança que a oposição já fez no estado de São Paulo. Há quatro anos só tivemos dois partidos. Isso vai me dar pelo menos o dobro do tempo de televisão que eu tive em 2006, que deve ser de mais de sete minutos de tevê. No PMDB também há um forte movimento interno liderado pelo Michel Temer, pelo ministro Vagner Rossi, de apoio à candidatura da Dilma e à minha. Prefeitos, vereadores, lideranças do partido trabalham nessa perspectiva, o que também é um outro fator importante de ampliação. O PSB caminha para ter uma candidatura própria na nossa avaliação.
CC: E Paulo Skaf sairá mesmo como governador?
AM: Acho que é o mais provável, mas estamos mantendo uma porta aberta para a aliança, pois Skaf estava no início desse processo, especialmente em relação ao Gabriel Chalita, que rompeu com o PSDB e se filiou ao PSB na perspectiva de nos apoiar. Há um problema interno que eu não sei como será equacionado. Nós mantivemos a segunda vaga do senado e a vice na expectativa de uma possibilidade de aliança. O PC do B indica o Netinho, para a segunda vaga no Senado, que está muito bem nas pesquisas.
CC: É mais provável que saia Netinho ou Chalita?
AM: É mais provável que seja o Netinho, mas está aberta a possibilidade. Mas a medida que o PSB saia com uma candidatura própria não tem como fazer aliança para o Senado, nem para vice.
CC. O senhor apostaria então que o PSB saia sozinho?
AM: Estão fazendo reunião hoje, mas no sábado Márcio França deu uma entrevista no Correio Brasiliense dizendo que lançariam o Paulo Skaf dia 23 de maio, tanto que o PC do B marcou o encontro deles para 22 de maio. O Netinho já tem andado comigo e tem sido muito receptivo. Será a primeira vez que teremos um mano senador, além dos nove senadores, um mano senador. E traz uma juventude, traz a periferia, traz a história dele, uma coisa que eu acho que amplia, contribui.
CC: E acha possível que se elejam os dois senadores, a Marta Suplicy e Netinho?
AM: Eu acho que a Marta tem todas as chances de se eleger, não só porque está bem nas pesquisas, mas pela história dela como parlamentar, sempre ao lado dos excluídos, dos discriminados. Eu acho que isso é uma força muito grande no perfil dela, foi uma prefeita com grande sensibilidade social, com uma política pela inclusão social e hoje a administração do Kassab não vai bem, isso fortalece a candidatura da Marta como contraponto. Eu acho que ela está muito bem posicionada. E o Netinho, pelas pesquisas, mostra que tem um potencial, que sai em um patamar bastante importante e eu sinto na rua uma simpatia muito grande da população com ele, muito forte. Quando saímos na rua é uma coisa muito forte, principalmente entre os jovens da periferia, tem um carinho, um atenção muito grande pra ele. Eu acho que isso pode "dar pagode".
CC: Quem será o candidato à vice-governador?
AM: Para vice nós temos nomes do PDT, do PR, mas não definimos ainda, veremos quem tem o melhor perfil, que mais agregue à chapa.Não há reivindicação de ninguém. Há indicações, mas nós vamos aguardar mais um tempo ainda para escolher o vice. Assim que o quadro partidário se definir realmente a gente pode caminhar nessa direção. Ainda tem muito coisa indefinida. Eu acho que o quadro partidário deve caminhar para fechar com as candidaturas do Celso Russomanno, do Paulo Skaf, do Fabio Feldmann, do Geraldo Alckmin e a minha. O PSOL não sei como virá, deve ser o Paulo Búfalo, de Campinas. .
CC: Vamos falar um pouco de programa de governo. Na convenção do PSDB que lançou o Alckmin, o discurso dele e do Fernando Henrique em particular, foram destoantes da linha que o Serra ameaça desenvolver na eleição presidencial, digamos, menos beligerante. Serra tinha falado até em governar todo mundo junto, chamar o PT e o PV para governar...
AM: Eu acho que na convenção eles falaram de improviso. Não foi o marketing que escreveu o discurso. E de improviso eles falaram o que sempre foram. Na verdade, o PSDB sempre foi contra o Lula, fez de tudo para não existir o governo Lula, e ainda repete uma parte do discurso do Fernando Henrique, novamente tentando dizer que se a Dilma ganhar a eleição pode ser um desastre, disse "que Deus nos socorra", algo como tentando retomar uma retórica do medo, que eu achei que já estava totalmente ultrapassada, porque eles foram derrotados com essa retórica, a esperança venceu o medo.
E também porque o governo Lula teve um êxito inquestionável. É o presidente mais popular da história do Brasil, talvez a personalidade com mais prestígio internacional da história do país internacionalmente. Recebeu prêmio do El País, da Espanha, do Le Monde Diplomatique, da revista Time dos EUA, do Fórum Econômico Global, agora da ONU como campeão mundial de combate à fome, um prestígio, uma liderança, que é impressionante. O País hoje tem inflação menor que a do governo do Fernando Henrique Cardoso, a economia cresce duas vezes mais do que crescia nos 25 anos anteriores a ele. No IBGE, que tem sessenta anos de história, foi a maior redução da pobreza, 23 milhões de pessoas deixaram à linha da pobreza, com a ampliação da classe média, mais de 32 milhões de pessoas. Da história documentada do IBGE, o índice Coeficiente de Gini que é um índice inquestionável, é o melhor evolução que nos tivemos. Os mais pobres tiveram um ritmo de crescimento, no governo Lula um ritmo chinês em torno de 9% ao ano, isso em 7 anos.
O salário mínimo cresceu 74%, o Bolsa Família atinge dois milhões de famílias, o crédito consignado massificou o consumo popular. O Minha Casa Minha Vida já tem 410 mil casas sendo construídas e contratadas. O Prouni atinge 726 mil famílias que estão sendo beneficiadas.
CartaCapital: E aquela polêmica a respeito dos números que Dilma usou sobre as operações da Polícia Federal?
AM: Eu terminei um livro com um balanço do governo Lula. 1012 é (o número de operações da PF) que está no livro, eu terminei o livro com um balanço até 2009. Quando a Dilma me ligou, eu disse que era mais, imediatamente nós repassamos e eram 1060. No meu livro está assim: 20 operações de 2000 a 2002 do Fernando Henrique Cardoso. Eram 183 operações nos primeiros três anos do governo Lula, agora são 1060. Isso está disponibilizado no site da Polícia Federal inclusive, uma parte anterior do governo do Fernando Henrique Cardoso, se você olhar relatórios encontra lá as operações que foram feitas. É inquestionável. Nós aumentamos em 47% a verba da Receita Federal, aumentamos o efetivo, demos liberdade para adequação, investimos na inteligência policial, na polícia científica e os resultados apareceram também no combate à corrupção hoje muito mais eficiente. Uma transparência muito maior no País.
Objetivamente, o comportamento histórico deles e das principais lideranças não é compatível com esse discurso. Agora, se esse discurso é verdadeiramente uma inflexão, e eles pensam isso, se até quem sempre criticou o Lula, agora elogia o Lula, então vamos votar em quem o Lula elogia, vamos votar na Dilma.
E se esse governo é tão bom como eles dizem, então ele tem que continuar, deixar a Dilma trabalhar.
CC: Mas o senhor acha que a identificação da Dilma com o Lula já está clara para a maioria da população?
AM: A minha visão, é que essas coisas só vão ficar claras a partir de agosto, quando a televisão for para o ar. A Dilma vai ter quase metade do tempo de televisão da campanha, nunca tivemos isso. Em 2002 nós tínhamos 21% e o Serra tinha 47% do tempo de televisão, agora vai inverter, ele vai ter em torno de 26%, 27% e a Dilma deve ter em torno de 50% do tempo de televisão. Nós vamos poder mostrar uma coisa que o Brasil sente. 75% dos brasileiros apoia o governo Lula, porque o País cresce, tem estabilidade, foi precavido em relação à crise; nós somos hoje o segundo maior produtor e exportador de alimentos do mundo, a safra agrícola é recorde este ano, com149 milhões de toneladas, o pré-sal aponta uma perspectiva fantástica para a economia brasileira.
Nós criamos um mercado interno de massa, que é o que faz o Brasil crescer hoje, porque a Europa está mal, o Japão e os EUA continuam com dificuldades e o Brasil retomou um crescimento de mais de 7% nesse primeiro trimestre.
Então, meu livro vai contar isso detalhadamente, é um balanço do governo, o prefácio é do Lula. Chama-se "O Brasil, a Construção Retomada". Acho que vai ser um bom momento para o debate político.
Eu usei a "construção retomada" dialogando com "o Brasil construção interrompida", do Celso Furtado. Eu publico uma carta em que ele me mandou em 2002, aonde ele dizia a angústia que sentia em relação ao período neoliberal, as dificuldades do país, ele achava que ia ser muito difícil dar um salto histórico, mas achava que era possível, que as nossas propostas caminhavam nesta direção. Ele não viveu para ver, mas a gente retomou a construção da nação.
CC: E dá para adiantar para nós a questão central que aborda no livro?
AM: Eu acho que vai dar uma bela discussão, falo sobre como foi colocar o social como eixo estruturante do econômico e criar um mercado de consumo de massa, que era nosso projeto desde a origem. Porque nós fizemos a "Carta ao Povo Brasileiro" para fazer uma transição, na medida em que nossa margem de manobra era muito pequena quando nós chegamos.
A crise cambial, a taxa de juros estava em torno de 27,5%, a inflação estava em 17%, então se precisava de uma política de transição, para criar condições, acúmulo de forças, governabilidade, para implantar um modelo onde o social fosse o eixo estruturante do econômico, porque esse que é o novo desenvolvimentismo que o Lula trouxe: o protagonismo internacional do Brasil, a liderança dos países em desenvolvimento, a integração regional da América do Sul. Foi um trabalho que me deu muito orgulho de ter participado como líder do governo.
Esse balanço do governo Lula é muito importante para a disputa em São Paulo. Eles estão aqui no governo há 27 anos, 16 anos com o PSDB, o Alckmin foi governador por 12 anos, seis anos governador, seis anos vice-governador, e mais um ano e quatro meses como secretário de governo. Então, eu não posso comparar um governo que eu não fiz com um governo em que eles estão tanto tempo se alternando. Eu posso comparar o governo que nós fizemos no Brasil, com o governo que eles fizeram no Brasil e posso destacar o que do governo Lula nós fizemos em São Paulo.
CC: No debate do Sérgio Guerra com o José Eduardo Dutra (presidentes do PSDB e do PT) Guerra insistiu que o governo Lula era uma continuação da política econômica e dos programas sociais do governo Fernando Henrique, que Lula não fez outra coisa senão adaptar tanto a política econômica quanto os programas sociais.
AM: Evidente que, primeiro, a política externa é outra. O Serra disse que acha o Mercosul um desastre e nós investimos muito na integração. Nossas exportações para o Mercosul cresceram duas vezes mais, que as nossas exportações para o resto da economia mundial. Investimos na integração regional, isso ajudou no protagonismo internacional do país. Investimos em sair da ALCA, por uma política de articular os países em desenvolvimento e recolocá-los em uma agenda global. Não nos acomodamos com o papel subalterno, secundário em relação ao G-20, nós implodimos o G-8 e criamos o G- 20.
Nessa crise o Brasil presidiu o G-20 no momento da sua constituição, nós tivemos uma liderança inquestionável em Copenhague na agenda ambiental. E o presidente Lula é o presidente que mais vezes viajou à África, à Ásia, que mais viajou para a América Latina. Nós construímos realmente uma grande liderança internacional, que o mundo hoje aplaude e reconhece. Diferente da agenda de uma inserção subalterna que era o projeto deles.
O Cavallo (Domingo Cavallo, ex-ministro da Economia da Argentina nos governos Menem e Fernando de la Rúa) também dizia que o Mercosul era um projeto que tinha que ter uma relação carnal com os EUA e nós fizemos uma outra construção histórica cujo resultado, na balança comercial e nas contas externas do país, foi exuberante.
CC: E quais as diferenças sobre o papel do Estado, tema que deve também ocupar um espaço importante na campanha?
AM: Nós retomamos o estado planejador, o estado protagonista, nós fortalecemos as empresas estatais. Eles venderam quase todo o patrimônio. Se você pegar a revista Exame em 2006, eles diziam temos que vender a Petrobras e o Banco do Brasil. Na crise o que nós fizemos? O Banco do Brasil empresta mais hoje do que todos os bancos públicos emprestavam em 2002. O BNDES hoje é maior que o Banco Mundial. Na Caixa Econômica Federal só de crédito imobiliário são 47 bilhões de reais, tem 410 mil casas sendo construídas na faixa de 0 a 3 salários mínimos e esse programa foi lançado no auge da crise. Uma política que nunca foi feita no passado.
O que eles fizeram na crise? O Serra, vendeu a Nossa Caixa. No auge da crise, quanto estávamos usando os bancos públicos para fazer uma política de crédito em um grave cenário de crise de liquidez, eles estavam vendendo a Nossa Caixa. Aumentaram os impostos na capital, o IPTU, fizeram um programa de distribuição tributária em São Paulo que aumentou a carga tributária do estado, enquanto nós estávamos desonerando o setor estratégico, dando liquidez e colocando nos bancos públicos.
CC: Mas o Brasil tem ainda sérios entraves nas áreas de energia e infraestrutura, não é?
AM: Vamos começar pela Petrobras: eles venderam um terço por 5 bilhões de dólares. A Petrobras hoje vale 208 bilhões de dólares e é a 18ª maior empresa do mundo na bolsa, segunda maior empresa de petróleo do mundo. Isso e a descoberta do pré-sal mostram a força da Petrobras ao substituir importações na cadeia produtiva de petróleo. O Lula acabou de inaugurar o primeiro navio construído em Pernambuco, no estaleiro, que é uma coisa que foi construída nesse governo. A Ferrovia Norte-Sul está com 7 mil pessoas trabalhando, com uma velocidade fantástica, estava parada há 20 anos.
E o que eles fizeram em ferrovias? Em 16 anos que eles governaram o estado de São Paulo? Venderam a FEPASA e privatizaram todo o setor ferroviário nacional, abandonaram qualquer planejamento de projeto estruturante sobre trilho. O modelo de estado era outro, a política externa era outra, a política econômica foi outra. Nós fizemos uma política econômica de um perfil keynesiano, inclusive na crise, anti cíclico, para retomar a capacidade de investimento e formulação de políticas públicas. O PAC é a reconstrução da capacidade de planejamento estratégico de projetos estruturantes de investimentos do estado, em parceria com a iniciativa privada, que o Brasil tinha perdido a ideia de planejamento, projeto estruturante, papel protagonista do estado no impulso de seu desenvolvimento. Nós somos, na realidade, o que um novo desenvolvimentismo e a marca fundamental desse novo desenvolvimentismo é o social como eixo estruturante do econômico.
A ideia força desse governo foi criar um mercado de consumo de massa, eles diziam que se o salário mínimo crescesse a inflação voltava. Teve um crescimento de 74% do salário mínimo, eles jamais pensaram em um programa como o Prouni. Nunca existiu um Prouni antes, ele colocou 726 mil alunos na universidade com bolsa de estudos.
CC: Senador, o PSDB costuma dizer que foi o criador do programa Bolsa Família e hoje ninguém contesta o programa. Que avaliação o senhor faz dele hoje?
AM: O Bolsa Família é o projeto de maior alcance na distribuição de renda. Ele distribui mais renda que o próprio salário mínimo. E saiu uma pesquisa agora: os alunos do Bolsa Família têm uma assiduidade maior que os alunos da escola pública e um desempenho melhor que a média. A mesma coisa acontece no PROUNI. Portanto, os filhos da pobreza, quando têm oportunidade, eles crescem. A nossa obrigação é dar oportunidade. O Lula veio com uma agenda: salário mínimo, PROUNI, crédito consignado. O crédito consignado não existia, ele é o crédito popular. Com o PRONAF. nós quintuplicamos os recursos para a agricultura familiar. Na realidade, o Lula nunca esqueceu sua origem e ele governou para onde ele veio, inclusive na distribuição regional da renda. A renda do Nordeste aumentou. Projetos estruturantes, refinarias, portos, ferrovias, estaleiros sendo construídos e dando um salto de qualidade histórico no desenvolvimento sustentável do nordeste.
CC: Mas o PSDB, em São Paulo não deu prioridade à área social?
AM: Aqui em São Paulo, ele reduziu a verba, ele aprofundou o modelo neoliberal, que foi a marca desses 16 anos. Eles venderam o Banespa, venderam a Nossa Caixa, venderam quase todo o setor elétrico, venderam a empresa de distribuição de energia, privatizaram todo o setor ferroviário e não criaram nenhuma estrutura que pudesse cumprir o papel do que restou ao estado federal, como nós fizemos com os bancos e mostramos que é possível administrar com competência e eficiência.
Se você lê o discurso do meu adversário no lançamento da candidatura sábado passado, não há uma única menção aos principais problemas estruturais do estado de São Paulo. Nem lembra o fato do congestionamento no trânsito, as pessoas estão perdendo 2h43 no transporte, na capital, de acordo com pesquisa do IBOPE. Essa é a média diária, mas tem gente que perde mais do que isso. O que dá em dias úteis, tirando os finais de semana, 35 dias perdidos no trânsito, as pessoas estão deixando o mês de férias todo parado no trânsito, sem estar com a família e sem receber por isso. Na hora do rush, no período da tarde, no pico, nós estamos andando a 15 quilômetros por hora, a velocidade de uma galinha. Além da cidade não andar, eles não investiram em transporte público. Não fizeram um projeto para o interior, abandonaram a FEPASA, o trem bala Campinas - São Paulo - São José dos Campos, que eu estou defendendo desde a outra campanha, que é um projeto estruturante, mas que agora eu acho que sai, com o apoio do governo federal. Foi um projeto que o governo de São Paulo nunca priorizou. Os trens rápidos, para vir de Ribeirão Preto, Sorocaba, como todas as grandes cidades, todos estados modernos do mundo têm e São Paulo nada. O Brasil é a nona economia do mundo, caminha para ser a sétima nos próximos dois anos. Se você tirar São Paulo, o Brasil cai para a 18ª economia, se fôssemos um país, seríamos o terceiro país da América do Sul. Não tem sentido você não ter investimento em transporte de massa. O metrô, na Estação da Sé, tem 720 mil passageiros/dia é a mais congestionada do planeta. A Linha Vermelha, que tem um milhão de passageiros, tem 10 passageiros por metro quadrado e as pessoas têm que esperar três, quatro, cinco composições para embarcar e, às vezes, não conseguem desembarcar em algumas estações, como é o caso da Sé. Está um colapso o sistema
CC: Porém o governo anuncia a abertura em breve de pelo menos duas novas estações, a Faria Lima e a Paulista, não é isso?
AM: Eles prometeram entregar 28 estações em três anos e não entregaram. Eles prometeram colocar mais 20 composições nas principais linhas da CPTM, especialmente na Linha Vermelha e na linha que vai lá para Franco da Rocha. Não só não colocaram os investimentos, como não fizeram o Ferroanel, que é o que permitiria retirar o transporte de carga da estrutura ferroviária para disponibilizá-la só para o transporte de passageiros, aumentar a velocidade dos trens, colocar mais composições e o Ferroanel tinha que ser feito em paralelo ao trajeto do Rodoanel, junto com o Rodoanel. Você estaria fazendo a estrutura rodoviária e a estrutura ferroviária. Não fizeram. Mais uma vez não investiram um metro de trilho na estrutura ferroviária de São Paulo. No metrô nós estamos tendo a construção de 1,2 km por ano, na média do PSDB. Nós começamos juntos, lá atrás, com a cidade do México. O México tem 230 km de metrô, nós temos 63 km. Para chegarmos onde o México está, que é um país mais pobre, e o estado do México, mais pobre que o estado de São Paulo, e a cidade do México, que é mais pobre que a cidade de São Paulo, nós precisaríamos de 100 anos, para mostrar a ausência de visão estrutural. A cidade de Santiago tem 80 km de metrô, tem 5 milhões de pessoas. Não houve uma visão estruturante no transporte de massa e nem mesmo os corredores do ônibus eles retomaram. Não fizeram os corredores de ônibus, 28% da população continua andando de ônibus. Falta o ônibus biarticulado, com semáforos computadorizados para poder aumentar a velocidade da frota. Então, é um colapso o sistema de transporte.
CC: Posso concluir que Trânsito e Transporte devem ser questões centrais na sua campanha?
AM: Na Grande São Paulo seguramente é um tema central na vida das pessoas. Outro tema: se você olhar todos os indicadores de Segurança Pública, o Alckmin também não menciona no discurso dele a Segurança. Por sinal, no dia em que ele lançou a campanha dele, a PM e a Polícia Civil estavam de prontidão, sob risco de ameaça do crime organizado atacar novamente. Porque o aniversário do PCC é agora dia 9. Havia uma ameaça e a polícia estava de prontidão no dia do lançamento. Todos os indicadores de Segurança se deterioram em 2009.
CC: Mas o Serra fala em um Ministério de Segurança Pública...
AM: O Ministério da Justiça já gasta 87% da verba em Segurança Pública. O governo federal, além de fazer a Polícia Federal ser um exemplo de eficiência, autonomia e de capacidade operacional, de inteligência policial, fez o PRONASCI (Programa Nacional de Segurança Pública para a Cidadania). Ele é um programa que viabiliza as unidades pacificadoras da polícia no Rio de Janeiro junto de uma série de outras medidas de intervenção do estado, como o "Minha Casa, Minha Vida", educação, cultura e saúde que permitem o estado ocupar o território, onde antes ele se omitia, e dava lugar ao crime organizado. A Força Nacional recrutou quatrocentos mil homens disponibilizados para atuar em qualquer lugar do país. Não havia presídios federais e o governo federal criou quatro mil vagas de segurança máxima e não teve uma fuga, uma rebelião, um problema de gestão. Altamente informatizado, computadorizado com uma disciplina necessária para os chefes do crime organizado. São Paulo não mandou os chefes do crime organizado para os presídios federais. E as organizações criminosas tomaram e continuam tomando conta do sistema prisional. Na polícia de São Paulo chegou a tal ponto a insatisfação que, todos os indicadores pioraram no ano passado e nesse ano i continuam piorando, inclusive homicídios. Os homicídios no ano passado só tinham crescido 16% no interior, não tinham crescido na capital. Esse ano está crescendo fortemente na capital também. É um quadro de insatisfação profunda a tal ponto que umas das polícias mais mal pagas do país, que é a polícia de São Paulo, teve um confronto entre polícia civil e militar em frente ao Palácio dos Bandeirantes. Não tem como não discutir a segurança em São Paulo com o governador do Estado. Todos os indicadores: roubo de carga, assalto, furto, estupro, homicídio, tudo isso tem se deteriorado.
CC: O que parece ai é que o PSDB cobra a responsabilidade do governo federal...
AM: Não é verdade em outros estados. Em vários estados da Federação os indicadores continuam caindo.
CC: São Paulo está com uma situação pior do que o resto do país?
AM: É pior do que a média nacional, em 2009. Além disso, ele (Alckmin) também não menciona a Educação em seu discurso de lançamento como pré-candidato. Não fala da situação atual de São Paulo. Ele deixou a Educação numa situação em que, segundo o exame do SARESP (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo), que é do governo de São Paulo, dado de 2005, 30% dos alunos da primeira série não sabiam ler, nem escrever e 15% da segunda série. Cinquenta mil crianças da primeira e segunda série em São Paulo não aprenderam a ler e escrever, ou seja, uma sequela irreparável para o futuro. Quando você chega ao terceiro ano do ensino médio, na avaliação de hoje, os estudantes sabem, em média o que deviam saber na oitava série. Elas estão perdendo pelo menos três anos, na média, da escola pública, de deficiência de aprendizado. Quando você pega o PISA, que é o exame internacional para literatura, matemática e ciência, São Paulo, que é o Estado mais rico da Federação, está abaixo da média nacional.
Agora, porque nós chegamos numa situação como essa? Começa pelo corpo docente: 43% dos professores não são concursados. O secretário de Educação em 1983 é o mesmo de 2010, Paulo Renato de Souza. Cem mil professores não são concursados, ou seja, não têm carreira, não têm projeto de longo prazo e não têm estabilidade pedagógica. E você não forma, se não tiver um corpo coletivo capaz de acompanhar os alunos e trocar experiências. Como é que ele escolhe por último as aulas, principalmente nas periferias, é um rodízio permanente, não tem estabilidade e não tem o processo de aprendizado continuado. Se você pegar os dados do governo Serra na área de investimentos em Educação: há uma profunda insatisfação, a maioria dos professores ficou cinco anos sem reajuste salarial. O único reajuste foi 5% linear. A política de abono só pega até 20% da categoria e quando você recebe abono você fica quatro anos sem receber e depois só 20% dos 20% podem receber. Eu sou favorável dar estímulos desde que você dê pelo menos a inflação e nem isso eles fizeram para a maioria dos professores.
CC: Os professores de São Paulo ganham mais do que a maioria dos outros estados, não é?
AM: Na média, eles têm o décimo quarto salário do Brasil. Ele prometeu, no Plano Pluri-Anual de São Paulo, compromisso oficial do governo, 3.953 novas classes, porque há super lotação em muitas salas de aula em muitas regiões do Estado, mas só fez 12%. Prometeu melhorar ou substituir 5 mil prédios escolares e só fez 7% do prometido. Então, se olharmos a situação da Educação, o que é a Educação do futuro? A escola do futuro é uma escola informatizada, a escola tem que ter banda larga, as crianças têm que ter acesso a laptop, como o Uruguai está fazendo e como a Europa toda já quase fez. Hoje nós temos onze milhões e meio de jovens em São Paulo nas redes sociais, na internet, usando pen drive no pescoço e indo para uma lan house. E a escola não é uma escola acolhedora. Nós temos que ter um portal para o professor, um portal do aluno para ele ter acesso ao planejamento escolar, os exercícios. A escola hoje em São Paulo não acompanhou a evolução e o Estado tem condições para isso para se modernizar e ter uma escola do futuro.
CC: Mas na Saúde, a situação não está melhor?
AM: Na área da Saúde Pública não tem uma parceria republicana entre governo do Estado, governo federal e as prefeituras. Vejamos o SAMU: o governo Lula entregou 397 ambulâncias em São Paulo. O governo federal entrega a ambulância e o governo federal paga 50%, outros 25% são do Estado e 25% da prefeitura. O Estado de São Paulo é o único que não participa do SAMU, é o único que não participa das UPAS, com custeio de 25%, que são unidades de pronto-atendimento, tratamento de urgência e emergência. Nós estamos construindo 97 UPAS em São Paulo.
CC: O que senhor pretende fazer nas rodovias? E com os pedágios?
AM: Falta em todas essas áreas um debate. O abuso dos pedágios em São Paulo, por exemplo. Gustavo Mendes é o prefeito de Jaguariúna e vou te contar a história que ele me contou. É a seguinte: de Jaguariúna para Campinas são 18km e o pedágio custa R$7,90 para ir e o mesmo para voltar. Então, tem lá o cidadão que mora em Jaguariúna, trabalha em Indaiatuba na Toyota e estuda na PUC à noite, em Campinas. Dá quase quarenta reais por dia. Em dias úteis cerca de R$9.500 por ano de pedágio. Aí o sujeito arrumou uma namorada em Vinhedo e não pode mais namorar porque o PSDB não deixa (risos). Ou ele entregava o carro para concessionária ou largava a namorada. Largou a namorada (risos).
Quer dizer, essa é a situação que o Estado vive porque nos pedágios estaduais a taxa de retorno é de até 27%. Então você imagina o seguinte: às vezes, 80 a 90% da obra é custeada pelo BNDES a 10%, essa é a taxa, fora a reposição da inflação. Sendo que a taxa de retorno é de 20%, então são 10% líquido para aportar recursos sobre o volume, que é muito maior. E o indexador IGPM no pedágio federal, a taxa de retorno é de 8,5%, com indexador IPCA. A diferença média é de sete para um entre uma tarifa e outra. Precisa de pedágio para ter investimento, melhoria no Estado? Tudo bem, mas não com uma tarifa abusiva e eles prorrogaram os contratos das empresas sem licitar novamente e sem reduzir as tarifas. Se nós não discutirmos esses problemas estruturais, São Paulo não voltará a impulsionar o desenvolvimento do Brasil e tem todas as condições para ter um papel muito mais decisivo no desenvolvimento do Brasil nessa perspectiva que serve para o País, já que é o Estado que tem a melhor indústria, os melhores serviços, os melhores centros tecnológicos e universidades, melhor agricultura e de repente você tem um processo de disputa política em que esses grandes temas não são discutidos. Uma parte da imprensa paulista finge que não existe, não debate e não permite que esse debate avance, o que é fundamental para São Paulo.
CC: Mas, senador, apesar de tudo isso, como é que se explica essa distância tão grande do Alckmin nas pesquisas hoje em relação à sua candidatura?
AM: Quem foi governador e vice-governador doze anos e mais um ano e quatro meses como secretário, quem disputou a presidência da República e acaba de disputar a eleição para a Prefeitura, é natural que com essa exposição e essa presença, e com a mesma equipe se alternando no governo há vinte e sete anos, tenha esse posicionamento nas pesquisas. Agora se isso fosse uma intenção de voto consolidada, como é que se explica que ele (Geraldo Alckmin) saiu com 45% para a prefeitura (em 2008) e terminou com 22%, nem para o segundo turno foi há um ano atrás?
A intenção de voto que ele tinha para a prefeitura é a mesma que ele tem hoje para o governo do Estado, só que nem chegou ao segundo turno. Eu acho que não é consistente e à medida que o debate avançar à medida que nós tivermos acesso à televisão e rádio para poder fazer esse debate aprofundado, nós vamos crescer. Na hora em que o Lula começar a se despedir do povo brasileiro definitivamente, eu acho que vai ter uma grande emoção e São Paulo, que durante tanto tempo, não acreditou que o Lula poderia ser presidente, um bom presidente e hoje aplaude, eu acho que pode votar no Mercadante e acreditar que é possível fazer em São Paulo o que nós já fizemos no Brasil. Um governo muito melhor do que o do PSDB.