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Entrevista com Geremias Ribeiro Pinto - Prefeito de Piedade

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009
fonte:  Priscila Beck Guimarães
AI/HP
Entrevista com Geremias Ribeiro Pinto - Prefeito de Piedade
Entrevista com Geremias Ribeiro Pinto - Prefeito de Piedade
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Entrevista com Geremias Ribeiro Pinto - Prefeito de Piedade
Entrevista com Geremias Ribeiro Pinto - Prefeito de Piedade

Geremias Ribeiro Pinto é um homem de comportamento tímido, fala baixinho e quando sorri seus pequenos olhos chegam a se fechar. Quem não o conhece, logo fica intrigado por saber como esse Geremias se tornou Prefeito de Piedade, eleito pelo Partido dos Trabalhadores, numa cidade historicamente governada por homens ligados à direita. E ao tomar contato com sua história de vida e trajetória política, fica muito claro que a timidez em Geremias é como um verniz em madeira forte. Por baixo desse verniz há a robustez da história de um homem que nasceu em família humilde da roça. Filho de pais que tiveram 20 filhos, mas apesar das privações da vida de trabalho duro na agricultura nunca deixou de lado o sonho de estudar, foi do primário ao curso superior e se tornou professor de História. E em toda sua trajetória sempre esteve envolvido com as lutas sociais, desde os grêmios escolares, centros acadêmicos, movimentos da igreja católica e movimento sindical até a própria fundação do Partido dos Trabalhadores em Piedade. Com a mesma paciência que teve para conquistar o diploma universitário, Geremias foi construindo uma proposta de Governo Participativo para Piedade e, com seu jeito tímido, conquistou apoios importantes em Piedade, entre os quais o mais importante de todos: o da população que anseia ver a história de Piedade mudar no sentido da construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Confira a entrevista de Geremias para o nosso site!


Pra começar, conte-nos um pouco da sua história, sua profissão, filhos, como você começou na política.

Geremias - Eu nasci na zona rural de Piedade, sou de uma família de agricultores. Meu pai e minha mãe tiveram 20 filhos, sete faleceram, nós somos em 13 filhos. Dessa família, a minha história, desde criança, é trabalhar na roça, eu trabalhava na roça, ajudava meus pais aprendendo a profissão de agricultor. E sempre tive comigo a vontade de estudar. Era bastante estudioso, gostava de estudar. Naquela época não existia o ginásio, não tinha o colégio de 5ª a 8ª série, tinha que ir pra cidade. Terminei o ensino primário e queria estudar de todo jeito. Aí saí com 11 anos de casa, fui morar com meus tios pra poder estudar na cidade. Na roça, desde pequeno eu vi os problemas que meus pais enfrentavam com as questões da agricultura. Às vezes ganhava, às vezes perdia. Tinha vezes que tínhamos condições melhores, financeiramente, e vezes que não tínhamos condições. Mas, dali, fui pra cidade, estudei, ajudando meus pais na roça. E sempre assim, estudava e tinham vezes que precisava parar pra poder star trabalhar. Mas eu decidi que queria estudar mesmo, fui pra cidade, fiz o colegial, fiz faculdade de História. Desde pequenininho, como eu falei, gostava de estudar então a profissão que escolhi foi de professor. Hoje sou professor efetivo da rede do Estado, professor de história.

Aprendi muito na faculdade e também com a vida e ingressei na política partidária, vamos dizer assim mesmo, em 89 com a eleição para presidente, quando nós fizemos campanha para o companheiro Lula. A partir daí, nós formamos o PT, depois da eleição que nós perdemos. (A derrota) foi uma grande tristeza para todos nós, tínhamos quase 30 anos sem votar para presidente e foi em vão toda aquela luta, todo aquele sonho. Então eu entrei na política fundando o Partido dos Trabalhadores em Piedade, depois da eleição de Lula em 89.

Tive no movimento estudantil, alguns grêmios, na época ainda era proibido. Nós tínhamos participado de alguns centros acadêmicos na faculdade Dom Aguirre. Meu primeiro emprego na cidade foi de tipógrafo, eu trabalhei numa gráfica, e na gráfica eu pude ajudar um pouco melhor a minha família e também me sustentar, passei a morar em pensão para estudar. E logo no primeiro ano já tinha aula pra mim. E no terceiro ano eu comecei a lecionar como professor. Em 1990 eu me efetivei na rede e comecei somente a trabalhar no magistério. E no magistério também ingressei no movimento sindical, fui sempre conselheiro da Apeoesp, representante regional, e organizando a categoria de professores na cidade, pois não havia organização. O movimento sindical também ajudou bastante e a igreja católica, tinha um movimento bem ativo da juventude da igreja, através do qual a gente despertou pra política também. Era Fé e Política, onde começamos a discutir emendas à nova Constituição de 88, através de alguns padres, alguns deputados que iam e pegavam sugestões. Então começamos a discutir e encaminhar algumas coisas para os parlamentares. Então foi assim, mundo rural, e depois militando pelo sindicato como professor e fundando o Partido dos Trabalhadores, no qual tenho o maior orgulho de ser um dos fundadores em Piedade.

Muitos definem, e não sem razão, que em 2008 nós tivemos a eleição da reeleição. Alguns números mostram que mais de 80% dos prefeitos que podiam disputar a eleição novamente, foram reeleitos. Você foi um dos poucos, nesse cenário, aqui no estado de São Paulo, que venceu um prefeito que concorria à reeleição. E tem mais um detalhe, era um prefeito tucano e com apoio declarado do governador José Serra e caciques políticos regionais importantes, como os deputados Renato Amary e Antonio Carlos Panunzzio. Como é que foi isso? Como é que foi esse gostinho de ser o diferente, um dos poucos que venceu um prefeito candidato à reeleição?

Geremias - Foi uma grande vitória. Como diz o ditado popular: “lavamos a alma”. Em Piedade, politicamente falando, sempre existiu o colonialismo. Sempre era um, ou outro. E nós conseguimos quebrar essa hegemonia. O Partido dos Trabalhadores sempre se colocou como alternativa para Piedade. A cada eleição nós crescemos em número de votos e essa aqui realmente, para região, pro estado em nível nacional foi uma grande vitória porque eles tinham todo o controle, tinham a máquina na mão. E nós conseguimos articular uma aliança e usar (isso) da melhor forma possível. O nosso melhor cabo eleitoral foi o presidente Lula. Em Piedade, com o Lula vencendo as eleições, tivemos uma grande aceitação da população, principalmente a rural, devido às políticas e programas implantados pelo Governo Federal que nos ajudou bastante a mostrar porque o Partido dos Trabalhadores chegou à Presidência da República e porque o Partido dos Trabalhadores teria condições também de chegar à Prefeitura.

Então os programas como “Luz para todos”, em Piedade foram beneficiadas mais de duas mil famílias; o “Bolsa Família”, quase três mil famílias; além de outros como o “Pronaf”, crédito do Banco do Brasil, que atingiu os agricultores, aquela comunidade que era esquecida nos governos anteriores. Eles sentiram essa oportunidade que também tem Piedade, sob um governo do PT.

Então, quando nós firmamos a aliança, tínhamos convicção que a disputa seria bastante acirrada, mas que nós tínhamos grandes chances devido ao sucesso do Governo Federal, das políticas públicas que foram implantadas em Piedade. Então ficou muito mais fácil fazer a campanha. Mas também porque os tucanos lá em Piedade esqueceram, abandonaram os bairros. Por Piedade ser um município muito grande em extensão rural, nós apresentamos uma proposta priorizando o rural. Já tínhamos, enquanto vereador e mesmo antes de ter um mandato eletivo, acompanhamos a elaboração do Plano Diretor e apontamos a prioridade para o rural. Então nós vencemos a eleição com as políticas e programas do Governo Federal e também através da nossa proposta de inverter as prioridades, priorizando o rural. Foi uma grande vitória para todos nós e, como eu falei, “lavamos a alma” diante de todo esse processo eleitoral onde os tucanos reinavam.

Você passou pelo legislativo, você teve a experiência de ser vereador e agora você é o chefe do Executivo Municipal. Quais são as diferenças que você percebe entre esses dois Poderes que são fundamentais para a democracia? Não estamos falando aqui nem pelo Judiciário, mas entre o Legislativo e o Executivo. Essa experiência de ter passado pelo Legislativo, você acha que te qualifica melhor para o Executivo?

Geremias - Sem dúvida. A minha gestão enquanto vereador entre 2001 e 2004 foi uma grande lição, uma grande aprendizagem. No Legislativo você tem condições de organizar a base do projeto e levar as aspirações da população, mas você não tem o poder de decisão. Então nós sempre ficávamos frustrados muitas vezes. Você queria projetos, melhorias para o município, mas não era atendido por não ter o Executivo nas mãos.
São duas experiências, a primeira experiência válida, que me preparou, eu estava preparado para assumir o Executivo, que é uma outra experiência, ainda mais profunda, porque você está diretamente no Poder Municipal, você é a pessoa, o chefe do município, cujo processo para definir políticas públicas para o município está em suas mãos. Então é uma experiência bastante gratificante e agora muito mais, porque vai dar para colocar em prática o nosso modelo. Já aplicamos, em Piedade, o Modo Petista de Legislar, agora o Modo Petista de Governar. Através de um programa voltado para a gestão participativa, um programa democrático, popular, para atendermos realmente os anseios da população de Piedade.
São três meses de governo. A minha avaliação era bastante positiva, por causa de uma herança que nós recebemos. Nesses três meses a atuação da nossa equipe foi bastante positiva porque conseguimos dar conta do recado, mesmo com alguns grandes problemas que enfrentamos com as chuvas. E é uma experiência muito grande porque vamos poder colocar, como já falei, a nossa forma de governar. Um governo realmente justo e humano e olhando como um todo.

Em que situação você encontrou Piedade? Como estava o aparelho da Prefeitura, quais foram suas primeiras medidas? E eu queria saber também qual é o seu principal sonho, o carro-chefe da sua administração, que você gostaria de deixar marcado: “isso aqui foi a administração do Geremias que fez em Piedade”?

Geremias - Em primeiro lugar, nós começamos a governar já na transição. Nós ficamos preocupados, após a eleição, e já começamos a fazer um governo paralelo para saber o que iríamos encontrar. Logicamente, nós não tínhamos condições de ter acesso a todas as informações e quando realmente assumimos, tomamos posse, nos deparamos com uma realidade bastante complicada

Como Piedade possui extensão rural muito grande, a conservação de estradas exige muitas máquinas e nós assumimos com uma frota de máquinas totalmente quebradas. Tivemos que arrumar todas elas. Encontramos muita carência de funcionalismo na área que nós mais precisávamos, que era a área braçal, de serviços gerais. A maioria era de aposentados ou afastados por problemas de saúde. Então nós pegamos uma administração que faltava muita coisa.

Havia muitos prédios públicos depredados. A política era de se fazer o mínimo. O rural ficou abandonado, as estradas rurais todas abandonadas. E o que nós fizemos? Nós fizemos a operação emergencial, desses serviços mais necessários, para podermos organizar todo o nosso pessoal, a nossa equipe. Corremos para arrumar as máquinas. Para se ter uma noção, das nossas máquinas, a mais nova tem 15 anos de uso e a sorte é que a nossa equipe, que assumiu, já tinha planejado algumas ações. Mas além disso, descobrimos a existência de muitos precatórios, até de outras gestões passadas, que agora estão caindo no nosso colo. Logicamente que esses precatórios têm prazo pra serem pagos, mas todos que encontramos já estão em última instância, não tem mais como mais voltar. Então, cedo ou tarde temos que pagar. Temos em torno de R$ 5 milhões de precatórios para pagar.

Muitos vícios administrativos. Muitos funcionários que trabalhavam do jeito que achavam melhor. Fizemos uma reestruturação, alguns foram exonerados. E outros pediram exoneração porque nós não aceitamos, por exemplo, funcionários trabalhando duas, três horas, sendo que eram contratados por oito horas. Então, tinha muitos vícios administrativos que nós estamos, aos poucos, eliminando e deixando em ordem. Sem falar de que nunca houve uma capacitação dos funcionários. O funcionalismo público nunca foi tratado de forma respeitosa. Nós pegamos situações, principalmente na garagem, de alcoolismo. Pessoas que estavam morrendo, trabalhando sem o mínimo de cuidados. A questão de drogas e tudo mais. Recuperamos alguns.

Hoje podemos dizer que existe uma organização, um controle e o funcionalismo vê, na nossa administração, essa possibilidade de estar sendo valorizado. Foi um grande desafio reestruturar todo o quadro, mas o fizemos porque sem eles nós também não podemos fazer nada. Então, nós demos uma outra cara para a Administração, sempre mostrando essa gestão participativa, sempre dialogando com todo o funcionalismo. A herança, como eu falei, foi bastante complicada, bastante ruim, mas nesses três meses a gente conseguiu dar conta e, com o nosso planejamento, isso melhorará cada vez mais na nossa administração.

E qual é o seu sonho?

Geremias – Como Piedade é uma cidade agrícola, a nossa meta é auxiliar a população rural na Agricultura Familiar, erradicar o analfabetismo, existe um grande índice de analfabetos adultos e essa também é uma meta bastante importante. E na saúde pública, queremos descentralizar, levando a saúde preventiva através do PSF (Programa Saúde da Família). Mas a marca do nosso governo realmente será a gestão participativa, implantando o Orçamento Participativo, mostrando que a comunidade, a sociedade não exercem a democracia só através do voto. É muito mais importante a participação da sociedade junto ao governo na busca de soluções conjuntas. E isso nós queremos garantir através da Gestão Participativa. Essa será a nossa marca. Lógico, se levanta a questão de creches. Só neste ano, temos duas para construir. Vamos construir mais, inclusive, as creches rurais através do que consideramos um grande avanço, que é o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação).

Você estava falando que Piedade é um município que tem algo em torno de 50 mil habitantes e embora tenha alguma coisa de indústria, a economia é predominantemente agrícola. E essa crise econômica mundial, como tem refletido nessas cidades como Piedade que tem essas características de uma economia fundamentalmente agrícola e como vocês tem enfrentado essa crise?

Geremias – É uma preocupação desse governo se manifestar com cautela sobre essa questão. A agricultura não foi muito atingida. No setor da indústria, na área metalúrgica sim, porque são produtos de exportação. Mas eu vejo que, em Piedade, o que nós podemos fazer é investir mesmo na Agricultura Familiar, valorizar o homem do campo, desde a criança, na educação, para que ele se fixe no campo. Precisamos dar condições para eles ficarem no campo, ajudar a agregar valores à produção, já termos a escola técnica na área da agricultura, que auxiliará os produtores, inclusive na área de comercialização. Então, a nossa idéia é reestruturar toda a questão da Casa da Agricultura pra poder dar condições ao pequeno produtor para sobreviver da Agricultura Familiar e criando também novos empregos na zona rural. Hoje já existe a dificuldade de encontrar pessoas que trabalhem na área rural, o que tem gerado uma migração para a cidade, que por sua vez não vai comportar esse êxodo. Mesmo as indústrias metalúrgicas vindo e outras que virão, que estão em contato com a gente, não haverá capacidade para absorver essa mão-de-obra.
E Piedade também nunca preparou a juventude, a mão de obra especializada. Então nós temos que investir também em Escolas Técnicas. Estamos fazendo uma parceria com o Centro Paulo Souza, com a UFSCAR, com a Unesp, com a USP para poder preparar os nossos jovens, qualificando a mão de obra, além de outros modos de cursos técnicos, tipo Senai, Sebrae, para poder absorver o mercado em Piedade e na região.
E com a crise, vejo novas oportunidades para alguns setores. Então estaremos investindo também no setor do turismo rural. Piedade tem uma característica bastante grande de turismo rural, de eco turismo, para poder criar alternativas à crise.

Nesses seus primeiros três meses e meio de governo, como tem sido a sua relação com o Governo Estadual e com o Governo Federal?

Geremias – Sem dúvida, com o Governo Federal é muito mais tranquilo. Nós estivemos em Brasília, tivemos várias emendas de parlamentares que têm nos ajudado bastante. Mas mesmo assim, com o Governo do Estado, estreitamos a nossa relação e conseguimos, nessa transição, assegurar várias emendas que o Prefeito anterior não tinha incluído no seu plano. Então nós recuperamos algumas emendas importantes, fomos ao Palácio (dos Bandeirantes) cobrar do estado a sua responsabilidade no que tange à Segurança, fomos atrás de parcerias para melhorar as nossas estradas, algumas vicinais vão ser recapeadas, ganhamos asfalto. Então, a relação é amistosa, mesmo se tratando de um governo contrário, isso eu coloco, nós temos uma capacidade articulação que administrações anteriores nunca tiveram, mesmo sendo do mesmo Partido. Lógico que dentro das possibilidades, nós temos conseguido recursos. Então, a relação tanto com o Governo Federal, que é muito mais fácil para nós, mas como com o Governo Estadual, é boa e, com certeza, algumas parcerias serão feitas e algumas já estão até em projeto.

Você tem alguma coisa a acrescentar que nós não tratamos na nossa conversa?

Geremias – Eu quero ressaltar um dos problemas que nós enfrentamos referente às chuvas. Nós tivemos que decretar estado de alerta, de emergência. A sorte é que nós tivemos condições de realizar um trabalho rápido. A Defesa Civil, quando vieram as chuvas, conseguiu dar conta do recado. Então, há aproximadamente 100 pontos críticos em Piedade. Nós conseguimos contornar e não tivemos nenhuma vítima. Então essa foi uma ação positiva da Diretoria de Obras que trabalhou habilmente conseguiu resolver os problemas. Em Piedade existe um problema sério fundiário. Muitos ainda não têm o seu título e isso dificulta também na arrecadação do município, dificulta a organização até para a conquista de créditos para a agricultura. Nós temos um projeto para regularizar a questão fundiária, que é imensa em Piedade. Nossa idéia é organizar e melhorar a questão fundiária de Piedade.

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